As Leis do Impacto

Ou o que é que realmente acontece quando a cabeça de um taco bate na bola de golfe

Introdução


Condições Ideais

Antes de mais nada, e para simplificar outros efeitos circunstanciais, qualquer discussão que se segue sobre este tema admite, logo à partida, que o contacto da face da cabeça do taco é sempre conseguido de forma correcta para os vários tacos em questão.

Isto significa em todos os casos que a pancada é limpa, ou seja, que o material da face to taco toca na bola primeiro, sem qualquer outra matéria (normalmente relva, terra ou areia) se interrometer entre eles, e:

  • nos ferros a bola é comprimida e apanhada na fase descendente do arco do swing.
  • nas madeiras a bola é colhida do fairway mesmo no fundo do arco do swing.
  • no drive a bola é batida no arco ascendente do swing.​

Um Pouco de Física, Pouquinha Mesmo.

OK. Postas de lado as condicionantes que conduzem aos maus shots vamos pensar um pouco sobre física. Prometo ser breve.

O Sr. que levou com a maçã na cabeça, ou pelo menos assim o reza o mito, descobriu uma data de coisas sobre as forças da natureza e a primeira coisa que reconheceu foi algo que é deveras evidente: um objecto em repouso continua em repouso enquanto não for sujeito a uma força externa sobre si aplicada. A bem ver, isto também se aplica a movimentos uniformes de um objecto, mas não compliquemos.

Este fenómeno é conhecido como a 1ª Lei de Newton ou Lei da Inércia.

Em termos golfisticos o transfer deste conceito para o nosso jogo favorito é simples. Dadas umas excelentes condições atmosféricas, uma bola de golfe permanece em repouso no chão ou num tee enquanto não lhe dermos uma bordoada com um taco de golfe.

Adiante.

O espanto do Sr. Newton depois desta afirmação foi tal que o que se seguiu foi a observação mais profunda que as forças aplicadas a um objecto podem ter no movimento de um objecto.

Para os mais interessados isto significa que a alteração do movimento de um objecto é proporcional à grandeza e direcção de uma qualquer força que se lhe venha a aplicar. Mas simplifiquemos.

Em golfês isto traduz-se assim: a bola de golfe (que tem um determinado peso) ganha uma velocidade de saída com uma direcção e grandeza que depende directamente da força e da direcção que a cabeça do taco lhe imprime durante o impacto. Atenção que o impacto não é algo idealmente percussivo, ou seja não acontece em zero segundos. A bola deforma-se e existe um tempo, de muito curta duração é um facto, mas existe e tem muito a ver como a bola sai desse contacto quase instantâneo e define a sua trajectória. Não só a inicial como antes a totalidade dela.

Por mais que a malta fale com a bola, reze para que não vá a banhos ou que não tome a decisão drástica de nos abandonar para outras paragens fora de limites ela vai programada de raíz por este efémero contacto. Mas todo o golfista sabe isso.

A terceira coisa, e última que nos interessa, que o Sr. também veio a reconhecer foi que quando dois objectos interagem, eles aplicam forças um ao outro que são iguais em grandeza e opostas em sentido. Esta ficou conhecida como a lei da acção e reacção.

Golfês: a face do taco faz uma data de cenas para pôr a bola, não só a sair a direito da pancada como também a pô-la a rolar. É a cena do spin. E tal como a face do taco tende a conferir spin à bola com eixos de rotação tão diferentes e variados, que nem a colecção de malas da prada conseguem igualar, a bola também confere torção à cabeça do taco. Todos sabemos que as varetas tremem com um determinado padrão (isto é assunto para outra ocasião), mas as varetas do taco também torcem que nem varas verdes. Quem nunca bateu na bola com a ponta da cabeça do taco e tão pouco ficou com o pulso a latejar que se acuse!

Resumindo:

  • Bola só mexe se a gente lhe tocar (dah!)
  • Bola só acelera se lhe dermos com alma (dah!) mas atenção à pontaria!
  • Bola é estúpida e rancorosa porque se o impacto não for perfeito ela amplifica o nosso erro.

E isto é quase tudo o que precisamos de saber de física para perceber o que acontece nas nossas pancadas de golfe.

Quase.

Os Factores Determinantes

Chega de física!

Falemos do que é que podemos fazer para obrigar a bola a fazer o que queremos que ela faça.

E se até agora falámos das leis da física vamos ter que falar nos vários factores que vão influenciar a trajectória das bolas consoante as leis do impacto. E já falámos deles, só que com outra roupagem.

Primeiro: A linha do alvo é uma das constantes mais importantes da pancada de golfe.

Segundo: A direcção para onde a face da cabeça do taco está orientada, no impacto, é outra das variáveis importantes no resultado de uma pancada de golfe, nomeadamente, na direcção de saída.

Terceiro: A trajectória que a cabeça do taco toma durante o swing em relação à linha do alvo em conjunto com o ângulo que ela forma com a direcção da face do taco, durante o impacto, determina o que a bola vai fazer durante o seu vôo depois da fase inicial da sua trajectória.

Uma palavra adicional sobre o arco do swing e a trajectória que a cabeça do taco faz no trajecto desse arco. Para as noções que abordaremos de seguida vamos admitir que o arco do swing se encontra num plano único, como se uma placa de vidro nos atravessasse o tronco onde as nossas mãos, a vareta e a cabeça do taco viajam coladinhos à sua superfície durante todo o gesto técnico da pancada de golfe. Assim o terceiro factor,  a trajectória que a cabeça do taco toma, passa a ser mais fácil de visualizar. Adiante, sempre que fale do caminho do taco ou da cabeça, é a esta trajectória que me estou a referir, para simplificar.

Se não nos deixarmos influenciar pelos milhões de pensamentos técnicos que nos geram ainda mais dúvidas quando nos fazemos à bola então, na realidade, estas são as únicas coisas com que nos devemos preocupar para podermos entender o que aconteceu num shot que acabámos de executar.

A interacção destes factores pode parecer tomar contornos de malvadez, mas é exactamente o modo como eles interagem entre si que nunca podemos ou devemos ignorar. A bem da entrega de um cartão de jogo que nos orgulhe!

Trajectórias



A Direito, o Pull e o Push

Esta parte é a mais simples deste artigo. 

Senão vejamos. Em condições muito ideais; com a face do taco perfeitamente virada para o alvo, e o plano do swing perfeitamente alinhado com o alvo durante o impacto a bola não tem outro remédio senão sair A Direito.

Não há cá eixos de rotação enviesados. Sai tudo perfeitinho. E já que estamos a falar de condições ideais, vamos admitir que para toda a discussão que se segue acertaremos sempre na bola com o sweet spot da cabeça e que não há ventos laterais nem de trás ou de frente e que os termos admitem sempre jogadores destros (que me desculpem os esquerdinos, mas dar-lhes-ei uma palavra de ajuste no fim).

Neste contacto perfeito notamos que o ângulo que a face do taco fecha com o caminho do taco é nulo. Por outras palavras, o taco está square (perpendicular) com o plano do swing.

Agora dois corolários.

Se, no impacto, a face esteve square ao caminho do taco (ângulo=0) e este estava apontado à direita do alvo então acabámos de bater um Push. Um push é uma trajectória sem curvas à direita. 

Caminho apontado à esquerda e taco square ao plano tinha dado um Pull. Um pull é uma trajectória sem curvas à esquerda.

Repito, não há cá eixos de rotação enviesados nestes shots.

O Push-Slice e o Pull-Hook

Hmm. Sim. Começo por aqui e não pelo draw ou fade. Já vamos ver porquê.

Vejamos os factores para estes dois nefastos shots. No push e no pull e no shot a direito os factores plano do swing e face do taco estavam sempre alinhados. Zero de ângulo entre eles.

Se a face do taco estiver apontada bem à direita para onde o plano do swing estiver a apontar, ou seja se estiver aberto ao plano, e se este plano, por sua vez, estiver apontado à direita da linha do alvo então deu à costa o inimigo público n.º 1 do jogador amador: o Push-Slice.

Quanto maior o ângulo entre a face e o plano do swing, maior será o grau de curvatura conferido à bola. A este factor os ingleses e os radares de medição de trajectórias de shots chamam-lhe FTP ou Face To Path.

O eixo de rotação da bola deixou de ser perfeitamente horizontal e paralelo com a face da cabeça do taco e passou a conferir à bola um segundo eixo de rotação tal, que visto de cima, faz a bola rodar no sentido dos ponteiros do relógio. A soma destes dois eixos resulta num eixo que em relação ao alvo fica inclinado para baixo à direita e para cima à esquerda e adiantado à esquerda e atrasado à direita.

Temos contactos de bola similares noutros desportos a conferir exactamente este mesmo eixo de rotação. Pensemos no cut do ténis e na trivela do futebol.

Bom. Perceber agora o shot em anzol descontrolado, ou Pull-Hook, é evidente. O face to path é agora  bem negativo, ou fechado. E o resto é o contrário do slice. O plano do swing (o path) está agora à esquerda do alvo.

O único aspecto comum, mas bem importante, destes dois shots é que nenhum dos dois vai em direcção ao alvo em altura nenhuma. Mesmo que saiam ao alvo nos primeiros metros o resto da viagem é sempre a fugir do alvo.

Muito.

O Slice e o Hook

Estes dois shots têm tudo em comum com os dois anteriores e agora que já os percebemos extrapolar para estes dois é fácil.

Enquanto que o pull-hook e o push-slice saíam logo à esquerda e à direita do alvo respectivamente e sempre a fugir do alvo. No hook e no slice a única coisa que muda é o ângulo de saída da bola relativamente à linha do alvo.

No Hook a bola sai à direita do alvo mas com uma curvatura exagerada ela volta para a linha do alvo e passa-a em excesso à esquerda.

Agora há que perceber um 4.º factor de que não falei até agora. Nem é um factor, é mais um facto empírico: 70% a 99% da direcção de saída da bola é determinada por para onde a face da cabeça do taco está virada durante o impacto nos shots que não vão a direito. Em média este valor ronda os 80% (há quem diga 75% mas isto depende muito do loft da cabeça do taco também). A física explica bem este fenómeno com a 2ª lei de Newton.

Mas em golfês e por exemplo, se o plano do nosso swing estava perfeito e alinhadinho com o alvo mas a face do taco estava 30º aberta no impacto então é certinho que esta bola saiu perto de 80% de 30º à direita, ou seja perto de 24º. Quem diria?

Voltemos ao hook. Para a bola ter saído à direita, como por definição acontece com este shot a face do taco tem que ter estado maioritariamente virada à direita do alvo. Mas para que possa haver uma curvatura exagerada à esquerda o face to path tem que ter estado bem fechado ou negativo. Por outras palavras, e perdoem-me a redundância, a face do taco teve que estar muito apontada à esquerda do plano do swing mas mesmo assim à direita do alvo. A consequência deste raciocínio leva-nos ao facto de que o plano de swing teve que estar alinhado ainda mais à direita que a face do taco.

Quem quiser aprofundar um pouco mais os limites deste outcome pense naqueles 20% que são contribuição do plano do swing (já que o resto é da face).

Atenção, que o que mais acontece com os jogadores que têm no seu swing natural o fazer draws é que o hook, quando se insinua subrepticiamente no gesto técnico destes golfistas, também resulta em bolas bem fora do fairway à esquerda. Quase sempre conduzente a posteriores shots de recuperação dificílimos.

Ao mesmo tempo, quem diria que este é um shot a praticar e a ter no repertório de ferramentas. Porquê? Porque quem for parar bem à esquerda com um shot de saída do tee, normalmente enfrenta a possibilidade de ter que repetir o mesmo shot para poder voltar ao fairway sem perder grande distância. Por vezes a solução é mesmo um hook propositadamente pronunciado para nos desviarmos de uma árvore ou muro atrás do qual nos encontramos.

Deixo ao leitor o exercício de pensar como definir o slice com base no que foi dito do hook. Deixo a definição para iniciar o pensamento crítico: no Slice a bola sai à esquerda do alvo mas com uma curvatura exagerada ela volta para a linha do alvo e passa-a em excesso à direita.

Já pensaram?

Simples: FTP aberto mas face fechada ao alvo.

E agora vamos ao maná dos deuses...

O Fade e o Draw

Tenho andado a trocar os shots à esquerda e à direita de que falo em primeiro lugar. É propositado e é para criar a ginástica mental necessária para que estes conceitos se tornem segunda natureza.

O fade por definição é um shot igual ao slice com a única diferença de que não queimou as pretensões do jogador. Isto é, o slice sai à esquerda do alvo mas retorna ao alvo. É um shot de precisão e normalmente é executado sem curvaturas demasiadamente pronunciadas.

Reparem que fazer shots perfeitamente a direito é muito difícil. E agora já sabem porquê. Garantir que os três factores estejam sempre bem alinhados em 36 dos nossos shots numa volta (na realidade uns 50+ para amadores) é muito difícil. Tentem, como exercício em 9 buracos garantir que 25 dos vossos shots (9 de saída e os outros 14) saiam a direito com o FTP a zeros e o plano bem alinhado ao alvo.

Para um Fade temos que garantir que o plano de swing esteja orientado à esquerda do alvo e que o FTP esteja aberto. O segredo aqui é quanto. Lembremo-nos das contribuições da face e plano para o shot. Para o golfista o que é importante perceber é que a face contribui em 4/5 de direcção e o plano 1/5 (podem tentar 3/4 e 1/4 se utilizarem tacos mais longos com mais frequência). O que se quer, grosso modo, é que se plano for planeado para um determinado ângulo de fora para dentro, por exemplo 5° à esquerda. Nós vamos querer a face do taco aberta face ao plano mas fechada em relação ao alvo em cerca de 1/5 ou 1/4 desse ângulo, ou seja entre 1° e 1,25°.

Para o Draw é só inverter o pensamento e a relação entre os factores. Prepare-se o plano de swing X graus à direita do alvo e jogue-se a face do taco X/4 ou X/5 graus aberta em relação ao alvo (o mesmo que dizer 3X/4 ou 4X/5 FTP)

Reparem que a direcção que estes shots tomam é maioritariamente em direcção ao alvo, com muito pouco desvio da face em relação ao alvo. O plano de swing é que tem que contribuir para a curvatura do shot. Com 4 a 5 vezes mais de ângulo do que a face.

Nerdiccionário


O Side Spin e O Gear Effect

Podia encerrar este artigo já aqui mas esta secção agora é para os nerds do golfe.

Quem não o é ponha a mão no ar e mude de página!

O side spin e o gear effect, tal como se dizem em golfês têm o seu equivalente em português. São eles a Rotação Lateral e o Efeito de Engrenagem da bola. Enquanto que o primeiro tem, como já se aflorou, ascendência na 2.ª Lei de Newton, a segunda tem a influência da 3.ª.

Sobre a rotação lateral e as componentes dos eixos que contribuem para tal já falámos, mas o efeito de engrenagem é o contribuinte adicional para a rotação lateral das bolas.

Imagine-se que a bola de golf, vista de cima, é uma roda dentada de uma engrenagem.

Agora imagine-se que a face do taco, também vista de cima, é uma régua a direito com dentes de engrenagem iguais aos da bola e que ambos estão ligados um ao outro no impacto.

Ora, quando a bola é impactada no sweet spot da face as forças de acção e reacção ocorrem no eixo em profundidade do centro de gravidade da cabeça do taco. Estando perfeitamente alinhadas, essas forças anulam-se porque a vareta do taco e a cabeça do taco não rodaram, quando vistas de cima.

Agora imagine-se que a bola é batida com a ponta da cabeça do taco, com o impacto bem afastado da vareta e bem fora do sweet spot.

A lei da acção/reacção determina que a força que o taco imprime à bola é a mesma de igual magnitude e sentido oposto que a que a bola imprime ao taco. So que como isto ocorre fora do eixo em profundidade do centro de gravidade da cabeça e como a bola estava em repouso e o taco em movimento o que acontece é que o taco é o primeiro a torcer porque a bola deforma e fica com a sua massa quase que totalmente concentrada no mesmo lugar físico.

Como no nosso modelo de engrenagem a bola e a face estão solidárias neste instante acontece que a ponta do taco vem para trás e a vareta continua a sua viagem, ou seja a recta dentada que representa a face roda sobre o eixo vertical de gravidade da cabeça do taco no sentido dos ponteiros do relógio. Como a bola está presa aos dentes da face ela ganhará uma rotação lateral contrária, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Precisamente o spin conferido por um draw.

O mesmo acontece, mas ao contrário, com o efeito de engrenagem para shots batidos junto à vareta. A face do taco fecha, rodando no sentido contrário dos ponteiros do relógio e a bola roda ao contrário. Precisamente com o efeito que é conferido por um shot em fade ou slice.

Isto, da engrenagem, óbviamente só serve o propósito de se perceber que o mesmo só se passa na realidade por causa do atrito que a bola tem com a face devido ao seu material de acabamento que trabalha muito bem com o metal das faces das cabeças dos tacos.

Por último, importa referir aqui que o efeito de rotação das cabeças devido à reacção das bolas é maior quanto mais para trás, longe da face, se encontrar o centro de gravidade da cabeça. Este é o caso dos híbridos, das madeiras e dos drivers.

É exactamente pela razão de existir este efeito de engrenagem que as cabeças destes tacos têm uma curvatura, quando visto de cima. Para maximizar o contra-efeito de spin e contrabalançar o facto do taco abrir e fechar em impactos na periferia. Rotação de draw quando o taco abre e rotação de fade quando o taco fecha.

Se as faces das madeiras e drivers fossem como as dos ferros então os shots na periferia resultavam em pull-hooks e push-slices em demasia, sem falar na redução óbvia na distância atingida.

Existe ainda o Efeito de Engrenagem vertical. Que mais não é do que o que já descrevemos anteriormente para o EE horizontal analisado quando a bola bate no topo da face ou no fundo da face da cabeça do taco. O raciocínio a fazer é o mesmo que anteriormente e para o golfista importa aqui reter que quanto maior a velocidade de swing mais estes efeitos têm maior influência e que o que é bom é bater na metade de cima da face, cerca de 5mm acima do plano que secciona a meio a cabeça de um driver.

Desejo a todos... muitos shots a direito!


As Leis do Impacto
PLBR Unipessoal, Lda., Peter Romão 10 de janeiro de 2024
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